Por que Paulo Freire incomoda tanto?

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O estudo da obra de Paulo Freire, em especial o livro Pedagogia do Oprimido, se faz a cada dia mais atual e necessário, pois diante do cenário sombrio em que nos encontramos, um cenário onde a Educação e, em especial, os educadores, ou ao menos os que realmente cumprem o papel de um educador, passam a ser vistos e considerados como inimigos do Governo e do próprio povo, urge  lançar um pouco de luz sobre essa massa tão carente de esclarecimentos e de libertação intelectual.

Os constantes ataques as atividades intelectuais, o desprezo pela produção de novos conhecimentos e a negação de teorias consolidadas, entre tantos outros fatos, comprovam as manobras para manter a cegueira intelectual e a opressão das classes menos favorecidas, sempre em detrimento dos privilégios das classes mais ricas, que se apegam a todos os tipos de argumentos desconexos, mas sempre com o mesmo objetivo, que é não perder um único benefício, enquanto os que já quase nada possuem, aplaudem a perda do pouco de dignidade que ainda lhes resta.

Diante disso, como não poderia deixar de ser, cabe aos educadores lutar contra esse mar de insanidade e fazer com que a luz do conhecimento possa trazer a quebra dessas correntes pesadas que nos prendem a um passado tenebroso.

O que presenciamos é exatamente o comportamento já descrito por Freire, ou seja, aquele padrão onde o opressor faz todo o possível para que o oprimido não se liberte. O oprimido, por sua vez, pelas próprias circunstâncias opressoras, se conforma com sua condição desumana em que foi colocado, julgando-se não merecedor de uma realidade diferente.

Apesar da minha formação ser na área de exatas e essa ter sido a minha maior área de atuação docente até o momento, vejo que diante da gravidade dos fatos, nenhuma oportunidade de lançar a luz do conhecimento pode ser negligenciada, ainda que para isso seja necessário quebrar alguns paradigmas.

Falando das minhas próprias experiências, já sofri críticas por parte dos alunos por abordar temas que, segundo eles, não tinham correlação com a matéria que deveria ser ministrada, pois seguindo minhas convicções sobre a Educação, me recuso a criar caixinhas onde devo guardar meus conhecimentos, assim como, onde devo alocar meus alunos.

É assustador ver como hoje, mesmo com toda a facilidade para se obter informações das mais variadas, muitos ainda se prendem ao conteudismo, achando que mais vale cumprir um planejamento do que adquirir conhecimento.

Essa visão, bastante limitada, hoje parece ser a tônica que impera o sistema, querendo cada vez mais professores que não expressem suas opiniões, constituindo a releitura da opressão, agora chamada de escola sem partido.

A educação bancária, tanto combatida por Freire, parece ter encontrado terreno fértil nos moldes do sistema educacional atual, que ao que parece, preocupa-se em formar cidadãos mecânicos, que repetem padrões, não questionam e estão simplesmente aptos a atender aos requisitos de um mercado cada vez mais agressivo.

Dessa forma, consolida-se a estrutura dominante do opressor, que detém o conhecimento, os meios de produção, as fontes de geração de riquezas e, com isso, ainda mantém a classe oprimida totalmente submissa e agradecida por exatamente se encontrar submissa.

O conhecimento que, em síntese, depende da expansão dos horizontes e da inquietação do aprendiz, se limita a uma pequena parcela da população, pois a maioria encontra-se destinada a apenas aceitar, sem questionar, sem problematizar e, com isso, sem sair do senso comum, não oferecendo risco algum aos opressores, que seguem ditando todas as regras necessárias para que a sua opressão encontre solo fértil e prospere cada vez mais.

Compete aos educadores trazer a mudança para esse cenário, despertando nos seus educandos a inquietação e o desconforto que só o contato com o novo pode trazer, a busca por novas visões de mundo, que abalarão as estruturas de todo um sistema conservador e manipulador.

Toda mudança requer reflexão e ação, interagindo e dialogando para a construção do novo. Esse é o princípio da dialogicidade, tanto incentivado por Freire e, também esse é o papel do docente, ou seja, incentivar não somente a teoria, nem tão pouco somente a prática, mas sim, o diálogo entre esses dois fatores, pois somente dessa forma é que poderemos vivenciar a verdadeira Educação libertadora.

Toda vez que observamos atos contrários a problematização e a liberdade do indivíduo de expor sua visão, questionar valores e buscar diferentes formas de executar uma ação, observamos, em contrapartida, a consolidação da opressão.

Essa percepção me fez reforçar a crença que sempre carreguei comigo, de que o papel do educador vai muito além de ser, simplesmente, um transmissor de conteúdo como infelizmente alguns sistemas querem fazer crer. A responsabilidade do educador vai muito além de trazer o conteúdo programático, até porque, com todos os recursos hoje existentes, por si só o educando pode buscar esse conteúdo.

Um dos grandes desafios de todo educador, em especial em tempos conturbados como os que vivemos, é trabalhar as questões morais da sociedade onde ele está inserido.

As estruturas morais da sociedade, em momentos de instabilidades e crises, tendem a se romper uma vez que os constantes ataques aos pilares que a sustentam estão em constantes ataques. Esses pilares estão centrados na cultura, educação, tradição e cotidiano, que são os valores que norteiam o comportamento humano dentro da sociedade.

Os constantes ataques a cultura, educação e a distorção das tradições, como hoje presenciamos, reforçam a tese do abalo moral que estamos passando e reforça a necessidade dos educadores em construir estruturas que impeçam o completo rompimento desses pilares, pois isso implicaria no desmonte dos principais valores e crenças que mantém a ordem social, constituindo com isso um caminho rumo ao caos, que por sua vez, pode ser uma estratégia da classe opressora, afinal, em momentos de extrema fragilidade as pessoas estão muito mais suscetíveis de serem manipuladas.

O papel do educador é aliar a teoria e a realidade do ambiente do educando com o conhecimento, dando uma visão mais ampla da realidade  e da aplicação do conhecimento como agente transformador, pois sem isso, o sistema educacional se transforma em mero almoxarifado de teorias, muitas das quais jamais sairão das prateleiras, por não encontrar utilidade na vida das pessoas.

Essa visão da educação, em absoluto, despreza o papel do conteúdo e da teoria, no entanto, reforça a necessidade do diálogo franco e aberto entre educador e educandos, sempre buscando o equilíbrio, o despertar do interesse e a transformação do ambiente em busca de uma sociedade mais justa e igualitária.

Por outro lado, o que temos observado, num movimento crescente, é o comportamento contrário, que também já foi proposto e debatido por Freire, o comportamento antidialógico, típico de regimes e sistemas autoritários, onde o prazer consiste em mandar e não em dialogar.

As características principais da teoria antidialógica estão, assustadoramente, crescendo em nossa sociedade. São elas:

  • A conquista: Manobras utilizadas pelos opressores para manter o poder de dominação e que vão desde os discursos mais dissimulados e disfarçados de paternalismo e interesse pelo outro, quando na verdade, apenas ocupam-se dos próprios interesses.
  • Dividir para manter a opressão: Talvez seja um dos aspectos que mais facilmente se observa em nossa sociedade, pois há uma grande cisão mesmo entre os oprimidos, que se colocam contrários aos próprios interesses, vítimas de um jogo psicológico perigoso.
  • Manipulação: Como consequência da própria baixa formação intelectual e da divisão propositalmente instalada, a massa se torna mais facilmente manipulável e suscetível a todos os tipos de absurdos, que vão desde a manipulação sórdida da verdade até a criação de distrações supérfluas, com o único objetivo de distrair o povo e fazer com que permaneçam na inércia, tanto física quanto intelectual.
  • Invasão cultural: Tentativa de limitar a visão de mundo, impondo um padrão pré-concebido e fora do contexto do oprimido, mas que é colocado como verdadeiro e único. Diante dessa desconexão com sua própria realidade, o oprimido se sente cada vez mais incapaz e marginalizado, não conseguindo se opor a essa dominação castradora da liberdade individual.

A visão realista de Freire, exposta no livro Pedagogia do Oprimido, muda definitivamente o papel do educador, pois uma vez que essa consciência seja adquirida, jamais será possível retornar ao padrão conteudista e bancário do sistema educacional.

A responsabilidade que nos é colocada vai muito além do conhecimento meramente técnico, que é importante, mas que não liberta, pois não incentiva o questionamento e a produção de novos saberes.

A inquietação deve ser a constante da vida de qualquer educador e, mais que isso, deve ser incentivada em seus educandos. Somente essa inquietação vai retirar o opressor da sua condição, pois a partir do momento em que o conhecimento se transforma em luz, não há mais espaço para a escuridão da ignorância.

O que podemos observar com essa obra é que a necessidade da mudança é cada vez mais urgente, cada vez mais necessária, no entanto, cada vez menos incentivada, pelo contrário, cada vez mais tolhida pelos que hoje ocupam o poder.

A todos nós, educadores e educandos, compete-nos a árdua missão de lançar luz sobre a escuridão, dando voz aos oprimidos, primeiramente, para que se deem conta da sua condição de oprimidos, pois muitos sequer se atentaram disso ainda.

Uma vez que o oprimido sinta sua voz ecoar, ele irá perceber que ela também tem força para reverberar no seu próximo e, ele mesmo, também pode se transformar num instrumento de mudança.

A teoria é empolgante, no entanto, voltamos ao próprio Freire, pois a teoria precisa dialogar com a prática, do contrário, a teoria será apenas palavreira, assim como, se a teoria for relegada, a prática será constituída apenas de ativismo.

Concluindo esse texto,  vejo que o principal desafio que nos é colocado é a nossa própria mudança, aliando os desafios da educação libertadora com nossa prática docente, abrindo novos horizontes, dando aos oprimidos e desvalidos a centelha da dignidade e da humanidade que todos precisamos, pois a partir dessa centelha, poderemos trilhar o caminho da libertação intelectual e dos pesos que nos são colocados, como dívidas que não são nossas!

Espero ter conseguido responder ao meu questionamento inicial, ou seja, por qual motivo Paulo Freire incomoda tanto? Você acha que alguém que possui essa linha de pensamento, de libertação e de autonomia, poderia ser amado por um grupo elitista e que pretende, com seus projetos segregacionistas, ao mesmo aumentar os privilégios dos mais ricos e tirar o pouco que ainda resta dos menos favorecidos? Óbvio que ele seria odiado e rejeitado!

Termino com uma citação de Mahatma Gandhi: “Seja a mudança que você quer ver no mundo”. Que esse seja nosso principal incentivo para colocar em prática tudo o que aqui discutimos e aprendemos.

 Referências:

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 67º Edição – Rio de Janeiro / São Paulo: Paz e Terra. 2019

Imagem:
Paulo Freire, o intelectual amoroso. Disponível em: https://plenarinho.leg.br/index.php/2017/09/paulo-freire-o-intelectual-amoroso/ . Acessado em 23/06/2019.

***Esse texto foi apresentado como atividade final do Programa de Formação Continuada de Professores: Uma Ênfase Cultural – Paulo Freire, na EXTECAMP – UNICAMP

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