Empreender ou Sobreviver

A diferença entre ser um empreendedor e lutar pela sobrevivência

O assunto pode virar polêmica, mas como ultimamente tudo é polêmico mesmo, vamos lá.

Faz um bom tempo que venho elaborando esse texto, refletindo e analisando teorias. Agora pretendo fazer uma provocação, no sentido amplo da palavra, uma provocação intelectual que pode levar a questionamentos e inquietações, afinal, é isso que move um professor.

De antemão, deixo claro que não sou contra o empreendedorismo, mas farei críticas a forma como hoje o empreendedorismo é visto e tratado.

Se você fizer uma rápida busca sobre o termo empreendedorismo, você vai se deparar com aproximadamente 42.300.000 resultados, o que nos leva a concluir facilmente que esse é um assunto que vem ganhando cada vez mais notoriedade e interesse, afinal, não existiriam 42 milhões de resultados para um assunto que não interessasse a ninguém.

Eu fiz essa busca, não que precisasse de uma resposta do Google sobre o que é empreendedorismo, mas porque estava buscando elementos para esse meu texto e para o embasamento das minhas percepções, que vou elencá-las a seguir, com base na análise de alguns resultados das buscas realizadas.

Obviamente, não entrei nos 42 milhões de resultados, do contrário, essa análise ficaria pronta daqui a mais ou menos 500 anos, portanto, vou fazer uso da amostragem e das projeções estatísticas.

Quando juntamos na busca os termos “empreendedorismo + sucesso”, temos algo em torno de 26.600.000, aproximadamente 62% do total de resultados.

Quando a busca é feita com os termos “empreendedorismo + dinheiro”, temos algo em torno de 34.600.000 resultados, aproximadamente 87% do total dos resultados.

Terminando essas minhas buscas, quando buscamos os termos “empreendedorismo + vocação”, temos algo em torno de 470.000 resultados, aproximadamente 1,5% do total dos resultados.

Essa rápida busca, sem o emprego de qualquer método científico, é verdade, mas considerando o resultado do próprio algoritmo do Google, que posiciona o resultado das pesquisas, com base nas buscas feitas pelos termos, posso inferir algumas conclusões, que são facilmente constatadas pela percepção da leitura da maioria dos artigos sobre o tema na Internet.

A grande maioria das pessoas parte para o empreendedorismo através de uma falsa premissa, de que empreender é sinônimo de ter sucesso e de ser rico, ou seja, a busca pelo empreendedorismo parte meramente da satisfação pessoal e da necessidade do capital, que em tese, vai embasar a satisfação pessoal.

O fato que me deixou bastante preocupado é que apenas 1% das pessoas que buscaram pelo tema empreendedorismo tiveram a curiosidade e a maturidade de associá-lo a um fator importantíssimo, que é a sua própria vocação para ser empreendedor.

Esse resultado, ao mesmo tempo que nos mostra algo perceptível, acredito, também acaba mostrando um padrão de comportamento do ser humano. Digo isso baseado nas estatísticas dos vestibulares, que são divulgadas anualmente.

Até hoje os cursos com maior procura são medicina, engenharia e direito. Será que isso demonstra que realmente a maioria das pessoas nasce com o dom dessas áreas, ou ainda existe uma influência da época imperial, onde apenas os filhos dos mais ricos eram enviados para fora do Brasil para estudar, normalmente num desses três cursos, que representavam o status máximo da sociedade da época?

Não digo que todos os alunos desses cursos se enquadram nessa situação, por outro lado, está longe da minha convicção de que todos são apaixonados pelas futuras profissões.

Esse comportamento reflete o padrão que citei acima, ou seja, quando as pessoas têm a oportunidade de estudar, muitos ainda acabam escolhendo com base em premissas sócio econômicas e de status, optando por cursos que supostamente vão lhe dar status, dinheiro e, quem sabe, satisfação pessoal.

Com o empreendedorismo, de certa forma, esse padrão se repete. Ele acabou se tornando uma promessa de ascensão social, de dinheiro fácil e de status, afinal, ostentar o título de “empresário” ou de “empreendedor” tornou-se uma possibilidade de ascender um degrau na hierarquia social.

Isso pode até acontecer, não é algo impossível, no entanto, esse tão sonhado sucesso chegará para uma minoria, sobrando para a grande maioria a frustração e o sentimento de fracasso.

Para falar de empreendedorismo, também é fundamental falarmos um pouco do mercado de trabalho e a relação entre a oferta e a demanda por produtos e serviços.

O que temos visto nos últimos anos é um processo de precarização do mercado de trabalho e das leis trabalhistas. Por outro lado, na fala de alguns entusiastas, isso impulsionou o empreendedorismo, chegando ao ponto de o Governo promover um programa de incentivo ao Microempreendedor Individual, o famoso MEI.

Ter o seu CNPJ e se enquadrar como MEI, de repente, parece que se tornou a solução para todos os problemas do mercado de trabalho. As empresas teriam mais facilidades para contratar serviços terceirizados e isso iria aquecer a economia e gerar novos empregos. Claramente, não foi o que aconteceu.

Não vou me alongar na discussão das relações de trabalho e questões legais, pois isso foge ao meu objetivo principal, no entanto, é inevitável não abordar essa relação, pois à medida que o emprego formal desaparece, o dito empreendedorismo aumenta, numa relação direta.

Por outro lado, a relação do mercado de trabalho com os microempreendedores também tem ligação direta, afinal, quem são as pessoas que mantém as micro e pequenas empresas funcionando? Simples, a parcela assalariada da população, pois as grandes fortunas jamais vão se importar com a lojinha do seu bairro, aliás, eles nem sabem que ela existe.

Depois de todas essas colocações, estamos chegando à provocação inicial desse texto, que é a pergunta: empreender ou sobreviver?

Minha percepção, amparada pela observação do mercado e pela experiência de quem está nesse próprio mercado é a de que a maioria dos empreendedores está apenas buscando uma forma de sobrevivência.

A maioria não tem formação na área em que atua, não faz aquilo que o realiza e gera satisfação pessoal e nem tão pouco está empreendendo por uma opção, mas sim, pela falta de uma, ou seja, a grande parte está empreendendo porque perdeu seu emprego e não está conseguindo se recolocar no mercado de trabalho, portanto, reforçando a resposta, muitos estão no empreendedorismo por mera necessidade de sobrevivência.

Toda essa contextualização não foi feita com o objetivo de desanimar você, nem tão pouco, para dizer que sou contra o empreendedorismo, mas sou a favor do empreendedorismo profissional, aquele que é feito com base nas regras e estudos necessários.

Com isso, não quero também dizer que o empreendedorismo deve ser restrito a uma pequena classe de privilegiados, mas falo isso com a preocupação de quem sabe que, muitos dos novos empreendedores, vão usar o pouco recurso que possuem para montar um negócio que não vai prosperar, simplesmente porque não há chance dele prosperar!

Montar um novo negócio não é uma decisão que nasce de um sonho premonitório. Ele é fruto de um sonho também, mas de muito estudo, análise de mercado, cálculos, formação sólida pessoal, cursos preparatórios da área em que se pretende atuar, entre tantas outras particularidades, que normalmente, acabam sendo desprezadas pela necessidade de sobrevivência.

Ao aceitar pacificamente esse método empreendedor irresponsável, creio que todos nós que temos esse conhecimento acabamos assumindo uma parcela de culpa no fracasso do outro, que é também fruto da nossa omissão e do nosso descaso social.

Hoje existe uma certa “romantização” do desemprego, como uma forma de crescimento pessoal e de oportunidade de empreender, no entanto, nós sabemos que isso é mero engodo e uma forma de acabar tornando os dados oficiais menos indigestos.

Nosso compromisso, enquanto detentores de relativo conhecimento e no papel de professor, não é o de romantizar nada, mas sim, fazer com que nossos alunos e clientes questionem, aprendam a analisar riscos, tenham capacidade técnica e, se assim o quiserem, que empreendam sim, pois é importante deixar claro, minha guerra não é contra o empreendedorismo, mas com a forma amadora e simplória com que tratamos um tema que não é simples.

Empreender nesses moldes é tirar a responsabilidade do Governo e transferir todo o resultado do fracasso ao próprio fracassado, tornando-o vítima duas vezes do mesmo golpe.

Quando alguém chega até mim buscando orientação para um novo negócio, acredito que meu papel não é somente o de enquadrá-lo num plano de negócios, com estudos maquiados e que irá apresentar a ele o resultado que ele quer ouvir, ou seja, de que o negócio dele vai dar certo, quando na verdade, pela análise de todo o contexto, eu já sei que não vai.

Ao fazer isso, me torno irresponsável perante meu próprio conhecimento e cúmplice do fracasso de alguém que confiou em mim as suas dúvidas e, mais que isso, confiou em mim os seus maiores desejos de sucesso.

Dito isso, creio que já posso me autodenominar um anti coach, mas a minha responsabilidade não me permite compactuar com práticas com as quais não concordo. Não estou criticando quem assim o faz e nem dizendo que estão errados, estou apenas sendo fiel aos meus princípios.

Em minha vivência acadêmica sempre mantive essa convicção, de passar aos meus alunos o melhor que eu poderia passar, mas também, de alertá-los sobre as vivências no mercado, que é cruel, é egoísta e, geralmente, só visa ao próprio interesse e ao próprio lucro. Essa não é a minha visão, não é o que acredito e nunca será o que vou praticar.

Se você realmente estiver querendo empreender, vamos fazer a coisa certa e estou aqui para isso.

Farei o melhor de mim para te ajudar a tomar a decisão, mas já alerto, pode ser que você não goste do que vou falar, pois ao selarmos um contrato, você não vai me pagar para que eu fale o que você quer ouvir e eu, por minha vez, não vou receber para te agradar.

Vamos ser profissionais, trabalhar com números, projeções e análises, que é o método científico da academia extrapolado para o mercado, no entanto, números não mentem, ao menos, quando não são manipulados para produzir mentiras.

Acredito no empreendedorismo, acredito principalmente no empreendedorismo social, que também não é bem o que se prega, pois o empreendedorismo social virou, pelo menos na visão de alguns oportunistas, apenas mais uma oportunidade de negócios mascarada pelo verniz de ser o bom moço que preza pela sociedade.

Acredito fielmente na força dos pequenos negócios, pois são eles que movimentam nosso país e é junto desses pequenos que pretendo atuar, pois também sou um desses pequenos e que busca um lugar nesse mercado voraz.

Não critico, de forma alguma, quem parte para o empreendedorismo na pressa de resolver um problema imediato, afinal, contas todos temos e todos temos que sobreviver e, ainda que seja por mera questão de sobrevivência, ao menos vamos fazer a coisa bem feita, quem sabe você não pode até mudar o seu próprio destino. Pode não ser fácil, mas é possível.

Reflita um pouco sobre isso. Empreender é um bom caminho, sem dúvida pode ser uma excelente alternativa, no entanto, tudo vai depender do fator gerador da sua vontade ou necessidade de empreender.

A vontade de empreender dará a você a maturidade para buscar e trilhar os caminhos necessários, que podem não ser tão rápidos e fáceis, mas que vão te conduzir ao sucesso, pois a sua caminhada foi sólida e consciente.

A necessidade de empreender poderá tirar de você etapas necessárias, mas a pressa de fazer acontecer não te permitirá ter o tempo de espera natural em todo processo de amadurecimento. Às vezes até funciona, mas o risco é muito maior.

Todo mundo sempre diz que empreender é correr riscos. Concordo, é mesmo, mas correr risco não quer dizer ser kamikaze, afinal, dentro do projeto da sua empresa deve haver um estudo sobre os riscos, assim como, um planejamento ou plano de contingenciamento para estancar esses riscos, caso eles ocorram. Esses são os riscos que podemos correr.

Imprevistos sempre vão acontecer, mas quanto menor eles forem, tanto em número quanto em impacto, maiores são as chances de sobrevivência. Se arriscar faz parte, mas ponderar entre o risco e a loucura pode fazer toda a diferença entre ter sucesso ou fracasso.

Vamos começar nosso planejamento? Aguardo seu contato!

 

 

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